Montserrat Aguilar (1974-2025), morte ao sol

De Montserrat Aguilar sabe-se muito pouco, quase nada. Como frequentemente sucede aos que não são bafejados pela fortuna ou pela fama, o ponto mais notório da sua vida, que a fez ser merecedora de notícias pelo mundo fora, é apenas e tão-somente o facto de ter morrido, e de ter morrido jovem, aos 51 anos. Quanto ao mais, ignora-se o que terá feito nessas suas cinco décadas de existência terrena, o local preciso onde nasceu, que amores e desamores terá tido, que estudos fez ou não fez, onde passava as férias, quais os pratos favoritos.
Ao certo, sabe-se que não tinha marido nem filhos, que morava com a mãe, de 85 anos, no bairro de Poblesenc, que cantava num coro e que há três anos trabalhava para uma empresa do grupo FCC — Medio Ambiente, o concessionário do serviço de limpeza e higiene urbana do município de Barcelona.
Tinha a seu cargo a zona do Bairro Gótico e, no passado dia 28 de Junho, sábado, fez a limpeza de um quadrilátero formado por Via Laietana, Calle Fontanella, Portal de l’Àngel e Calle Sagristans, no coração da capital catalã.
Começou o turno às 14h30, no pico do calor, com temperaturas acima dos 35º, e terminou-o por volta das 21h30.
A meio do turno, segundo a sua irmã, ter-se-á queixado do calor a uma encarregada da empresa que passava de carro no local, dizendo-lhe que estava a sentir-se mal, com dores no peito, as pernas pesadas. A encarregada ter-lhe-á dito para beber uma garrafa de água.
À noite, quando chegou a casa, enviou uma mensagem por WhatsApp a uma amiga que lhe perguntara como estava a lidar com a vaga de calor que assolava Espanha. Pedia desculpas por só responder àquela hora, dizendo que tivera “uma tarde muito má.” “Pensei que ia morrer, tive dores nos braços, no peito e no pescoço, cãibras, estive em Capellans” [nome de uma rua perto da catedral de Barcelona].
Depois, pediu à mãe que lhe servisse o jantar, pois não estava a sentir-se bem. À primeira colherada de puré de batata, tombou para o lado, inanimada. Ao ouvirem o estrondo no andar de cima, os vizinhos pensaram que a idosa dera uma queda e, quando lá foram, ainda tentaram reanimar Montserrat antes da chegada da ambulância. Em vão. Montserrat Aguilar morreria nos braços da sua mãe.
Antes mesmo de conhecer os resultados da autópsia, a família manifestou revolta pelo comportamento da empresa e do município de Barcelona, cujo director de higiene urbana, Carlos Vázquez, começou por negar que tivesse havido qualquer negligência por parte da edilidade, razão pela qual, acrescentou, não iria ser aberto um inquérito. “Há coisas que não sabemos e que talvez nunca venhamos a saber”, justificou-se. Horas depois, porém, o município anunciou que iria abrir um processo contra a FCC para apurar as circunstâncias concretas da jornada de trabalho de Montserrat Aguilar.
A irmã, Clara Aguilar, numa emocionada conferência de imprensa, questionando muitos dos procedimentos do grupo FCC, nomeadamente o uso de uma farda de trabalho 100% em poliéster, material impróprio para o calor intenso, e o facto de a encarregada da empresa não ter atendido às queixas de Montserrat a meio daquela tarde fatídica. Quando dispuser dos resultados definitivos da autópsia, a família pondera processar o município de Barcelona e a empresa concessionária da sua higiene urbana.
A morte de Montserrat Aguilar, uma modesta varredora de rua, foi notícia, imagine-se, da revista Fortune, da Bloomberg e, curiosamente, do Insurance Journal, uma publicação especializada na cobertura de riscos, a prova provada de que, no mundo do capital, há quem esteja muito atento e muito preocupado com as alterações climáticas: as empresas seguradoras, as que mais lidam e percebem de catástrofes e de grandes perigos. Elas lá sabem.
A morte de Montserrat motivou também as habituais correntes de indignação nas redes sociais, com uma página no Instagram a proclamar “Somos todos Montse”. Numa reunião extraordinária da autarquia barcelonesa, a oposição responsabilizou o executivo camarário e exigiu medidas urgentes, enquanto nas ruas se manifestavam os trabalhadores de limpeza da cidade, com os delegados sindicais a informarem que, nos últimos cinco anos, houve 16 inspecções contra a empresa FCC devido às condições laborais em situações de calor extremo. Só este ano, e além do caso fatal de Montserrat Aguilar, oito trabalhadores tiveram de receber assistência médica por golpes de calor nas horas de serviço. O município, por seu lado, referiu que este ano já teve 20 incidências laborais relacionadas com o calor.
Com os dados de que dispomos (falta a autópsia judicial), tudo indicia que Montserrat foi mais uma das muitas vítimas das sucessivas vagas de calor que têm atingido a Europa neste Verão. Antes dela, e entre tantos outros exemplos, um homem de 58 anos morreu em Córdova, no passado 23 de Junho, quando afixava um cartaz sob um sol abrasador.
Entre 16 de Maio e 13 de Julho, Espanha já tinha registado 1180 mortos por temperaturas extremas, um aumento de 1035% relação ao período homólogo do ano anterior. Em Portugal, até 1 de Agosto, o excesso de mortalidade cifrava-se em 264 óbitos. Segundo o serviço Copernicus, Julho de 2025 foi o terceiro mês mais quente desde que existem registos.
No passado 8 de Julho, a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou uma proposta do PAN para proteger os trabalhadores da autarquia nos períodos de calor extremo. O PCP votou contra porque não havia referência a negociações com os sindicatos. E o Chega votou igualmente contra porque, segundo a deputada Patrícia Branco, tudo não passava de uma “nova lengalenga sobre as alterações climáticas”.
