Os Jovens e o Voluntariado. "É olhar o outro como igual"

Os Jovens e o Voluntariado. “É olhar o outro como igual”

Joana Sequeira tem 25 anos. Formada em psicologia dos recursos humanos e das organizações, já foi chefe nacional da Missão País, que todos os anos mobiliza jovens universitários. Mas um dos projetos de voluntariado que mais a marcou, até hoje, foi o ComVidas, que disponibilizou ajuda aos lares de idosos durante a pandemia de Covid-19.

“Estive sobretudo na organização, mas também a sorte e a graça de poder fazer uma missão, em dezembro de 2020. Havia necessidade de voluntários e não estávamos a encontrar”. Esteve em Aguiar da Beira, e não esquece o que viveu. “Foi uma realidade muito dura, ver pessoas a sofrer muito, sem ninguém, fechadas nos seus quartos, muitas sozinhas, sem ver ninguém”.

Joana diz que “está a ser pensada uma continuidade” do projeto “no pós-JMJ”, porque há carência no apoio aos idosos institucionalizados. Durante a pandemia, tiveram “mais de 630 voluntários em mais de 50 lares”, mas em alguns até fizeram mais do que uma missão. Ao todo receberam “mais de 1.500 inscrições de pessoas disponíveis para ir, o que foi fantástico”. As situações limite a que assistiram e acompanharam permitiu aos voluntários perceber “a dignidade da pessoa humana até ao final da sua vida”.

A Missão País, que coordenou em 2020, foi também uma experiência marcante. “Foi quando começou a expansão, tivemos a primeira missão no Algarve, em Aveiro, Santarém e Setúbal”. Não tem dúvidas de que este é um importante projeto ao nível da pastoral juvenil em Portugal, reconhecido pela própria Igreja.

Joana foi também voluntária dos ‘Amigos Improváveis’, que continua a fazer a diferença para quem vive sozinho na cidade de Lisboa. E lembra as palavras que ouviram no final de uma missão. “Um idoso disse-nos ‘transformaram a nossa vida em vontade de dançar!’. É uma frase que nos marca muito”.

“O assistencialismo também é necessário”

Aos 35 anos, Joana Gomes tem uma vasta experiência de voluntariado. Passou pelas favelas do Rio de Janeiro e pelos campos de acolhimento de migrantes na Sicília. Há cinco anos partiu para o Chade com o JRS – Serviço Jesuíta aos Refugiados. Há três que vive no Uganda, “o país que acolhe mais refugiados do mundo”, e que agora sente como “casa”.

Formada em Serviço Social, é responsável por várias escolas nas zonas que acolhem quem foge dos países vizinhos. “Trabalho numa ONG ligada à Igreja anglicana da Finlândia, que desenvolve e implementa projetos de educação com refugiados. Estou a gerir um projeto, ao nível da educação secundária, em cinco campos de refugiados. São cerca de 24 mil alunos”.

Diz que “a situação é sempre muito complicada. Todas as semanas recebemos entre 100 a 500 novos refugiados”, do Sudão do Sul, do Congo e do Ruanda. As carências já são muitas, mas prevê-se um agravamento por causa do conflito que reacendeu no Sudão, e porque os benfeitores estão a reduzir os o Programa Alimentar Mundial (PAM) tem estado “a reduzir a quantidade de alimentos que é dada”.

A guerra na Ucrânia também complicou mais as coisas, e alguns refugiados já não estão a receber apoio, quando “infelizmente não têm uma capacidade real para poder ter uma vida normal e um trabalho”.

As organizações não governamentais presentes no Uganda dão apoio a vários níveis. Aquela onde trabalha dedica-se mais à educação, mas outras asseguram cuidados de saúde, alimentação. Joana explica que “o assistencialismo também é necessário. Neste contexto de refugiados, as necessidades básicas têm de ser atendidas, e só a partir daí é que se pode dar um passo mais à frente. Há muito trabalho a fazer aqui”.

Como voluntária, Joana sempre quis “ir onde ninguém vai”. No Uganda, apesar do que faz ser uma atividade paga, diz que continua a sentir-se “chamada a este trabalho com os refugiados” e a pôr-se ao serviço. “Faz parte de mim. Ainda esta semana me questionava onde é que posso servir mais, não só profissionalmente. Fica esta vontade de poder continuar a dar de uma forma mais gratuita”. Onde? “Ir para a Malásia, ou assim”.

Como desafia o Papa na encíclica ‘Fratelli Tutti’, sobre a fraternidade e a amizade social, ser voluntário “permite olhar o outro como irmão e como igual, como meu semelhante”. Joana diz que a fé esteve sempre presente nas suas escolhas, e acrescenta: “Acho que é a consciência que tenho do amor de Deus por mim que também me leva a querer partilhar e servir”.

Ser voluntário “já faz parte da minha vida”

Gonçalo Santos tem 23 anos, e há sete que faz voluntariado no Casalinho da Ajuda, um bairro social na cidade de Lisboa. “Vou todos os sábados. Durante muitos anos dei catequese e agora estou mais na parte da música, com os miúdos. Cantamos na missa, lá no bairro, e depois da missa costumamos lanchar todos juntos e temos ali um momento em que preparamos umas músicas e cantamos”.

Num contexto social complicado, em que “há miúdos que se metem nas drogas”, o mais importante é acompanhá-los. “Quando trabalhamos num bairro é fácil chegar lá e impor nossos projetos, achamos que devem estudar e ir para a universidade. Mas, temos de perceber que nem sempre somos a medida do que precisam”. Diz que “a coisa mais concreta que conseguimos fazer é olhar para eles. É a atenção a cada miúdo, amá-los, e só assim é que se consegue estar diante das dificuldades”.

“Quando entrei nisto, há sete anos, nem sabia bem a dimensão disto. Fui entrando na vida daquele bairro e destas pessoas e foi uma coisa tão grande que agora já faz parte da minha vida, e não me vejo a largar. Aqueles miúdos muitas vezes são difíceis de amar, são miúdos malcriados, com imensos problemas, mas fazer este esforço tem-me transformado”.

Ser voluntário é importante? “É importantíssimo”, garante. “Estar presente naquele bairro, olhar para aquelas crianças, perceber os problemas que têm, as dificuldades, as famílias, também me ajuda a estar melhor em casa, a estar melhor com os meus amigos e a olhar de maneira diferente para a vida”.

Voluntariado: a grande força da JMJ

Licenciado em Economia, Gonçalo está a trabalhar da Direção de Acolhimento e Voluntariado da Jornada Mundial da Juventude. “Acabei de estudar e tive esta oportunidade. É uma coisa espetacular!”, e não esconde o entusiamos por ir participar pela primeira vez numa Jornada Mundial da Juventude. A pouco mais de dois meses do evento, deixa o convite a que mais voluntários se inscrevam.

“Temos dois tipos de voluntários, os paroquiais, que se inscrevem junto das paróquias e têm de ter 15 anos ou mais, e os voluntários centrais que se inscrevem na nossa Plataforma lisboa2023.org e vão dar apoio nos eventos centrais durante a semana da JMJ.

“Já temos perto de 20 mil voluntários, mas gostávamos de conseguir chegar aos 30 mil, porque é de facto uma dimensão enorme”. As inscrições ainda estão abertas. “Idealmente, gostávamos que pudessem ter duas semanas de disponibilidade, a semana da Jornada e a anterior”, na qual vão decorrer os Dias das Dioceses e haverá atividades de preparação da JMJ.

Uma das atividades prévias à Jornada será o ‘Gesto missionário’, de que Joana Sequeira é a coordenadora. A jovem explica que “o Papa diz muito que estas Jornada é para todos”, e o objetivo é levar a JMJ “a quem não vai poder ir”, pela sua situação de vulnerabilidade ou fragilidade, “quem está nos lares, prisões, hospitais, centros de acolhimento de deficientes”.

Que pergunta fariam ao Papa?

Lançado o desafio habitual aos convidados do ‘Somar Ideias’, Gonçalo Santos gostava de saber “como é que é possível viver sempre com um olhar de criança?”. “Agora que começo a trabalhar, e olhando com humildade e sem preconceitos e de forma simples para as coisas, tenho percebido com as dificuldades da vida”, explica.

Joana Gomes diz que “perguntaria para quando um Papa de raízes africanas?, porque “seria algo que nos diria muito poder ver um Papa com quem as pessoas deste lado do Mediterrâneo se identificariam bastante”.

Joana Sequeira colocaria outra questão. “A minha pergunta é um bocadinho complexa”, avança. “Eu perguntava ao Papa Francisco que pergunta faria a Deus se soubesse que tinha uma resposta garantida”.