• Sou má de Junho

    21 Junho 2012 Morreste-me há quatro anos atras. Era Junho também. Dizem que hoje farias anos mad eu sei que o verbo nao deve ser conjugado no presente. Nao eras Ru quem fazia anos. Era o mundo que fazia anos de ti. Continua a faze-lo, avô. Era meia-noite, neste quarto de hospital, quando fechei os olhos e te sussurrei "parabéns". Sabes que sou sempre a primeira a fazê-lo, espero sempre pela meia-noite. Antes Quadripolaridades »

  • A angústia do professor antes do exame

    17 Junho 2012 Existe e é muita, acreditem. Quem anda nisto de alunos há muitos anos sabe que eles são como os vinhos. Há anos de colheita difícil e é o cabo dos trabalhos conseguir-lhes a atenção e persuadi-los ao esforço. Os alunos que levo amanhã a exame vêm dos cursos de Humanidades. De tanto ouvirem dizer que a escolha feita não lhes augura nada de bom, começaram a acreditar. Tornaram-se indiferentes, deixam andar. Chamo-os para umas aulas fora do tempo regulamentar e eles aparecem como quem me faz um favor. Não têm dúvidas e eu obrigo-os a duvidar, a encontrar nas matérias o ponto onde sentem o chão fugir-lhe debaixo dos pés. - Se for Lusíadas, nem começo a responder. - Oh, valha-me Deus! Mas tu sabes … - Sei, setôra, mas vou atrofiar. Outros anseiam pelo Felizmente há luar!: - Acho que sei tudo. - Boa! Perguntam pela milionésima vez: - O que é que acha que sai? - O que sai, não sei. O que pode sair, sei : é tudo. - Veja lá isto que escrevi aqui sobre o Memorial: o sonho, o trabalho … diga lá outra vez aquilo do feminino … e como é que é? A esperança no fim … Sobressaltam-se: - Eu não percebo isso da vontade do outro ficar na terra. Como é que é? Dou com eles a volta ao redondel dos símbolos e das metáforas. Suspiram. Irritam-se, passaram o ano irritados. Às vezes comigo, outras vezes com o mundo. O sistema de ensino pediu-lhes que tomassem uma decisão de vida aos 15 anos. Um decidiu que seria arqueólogo, outro geógrafo. Os restantes oscilam entre Direito e Comunicação, com paragens prolongadas no não-sei-muito-bem-ainda. Vão entrar na universidade num dos piores anos de sempre. Sabem disso e, mesmo quando tentam esquecê-lo, vem sempre alguém recordar-lhes a incerteza que os espera. Por isso, foram ficando assim, desencantados, distantes. Hoje, um ou outro mail ainda me há-de trazer um sobressalto de última hora e, como é tradição, mantenho o MSN ligado até tarde. Lá pelo meio da noite, vão aparecer os pânicos de última hora: - Acho que me esqueci de tudo. Amanhã à tarde, vou esperá-los no átrio. Como sempre. - Nada, nada, nada. Não me diga nada. - Yes! Eu sabia isto tão bem. - Setôra! Setorinha, veja aqui se esta relativa é restritiva. É? Oh, yeh! Tá-se bem! Como sempre, começo a esquecê-los umas horas depois. Para o ano, em Setembro, de novo uns pares de olhos imberbes hão-de levantar-se da “Autopsicografia” e suspirar: - Setôra, não percebo nada … E eu, como sempre, vou conduzi-los  até ao coração do texto. No fundo, isso é que importa. Exames, leva-os o vento.   Delito de Opinião »